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junho 05, 2003

Uma das primeiras aventuras - by Shibuya

Esta é a idéia de uma das melhores sessões de RPG que eu já mestrei, ainda que eu mesmo não saiba bem os motivos que fizeram com que ela fosse tão legal.

Eu e mais um amigo estávamos dispostos a mestrar naquele dia e o resto do grupo deixou a decisão em nossas mãos. Eu me reuni com o cara separado do grupo e começamos a discussão típica sobre o que jogarmos. Naquela época um dos únicos sistemas que conhecíamos o suficiente para mestrar assim de improviso era AD&D, portanto a discussão não foi sobre que sistema jogar mas sim sobre que tipo de história. Acabamos chegando em duas idéias, uma tirada de um filme e outra tirada de uma história popular (eu falo quais são no final). Ao invés de fazer ou um jogo baseado no filme ou um jogo baseado na história popular, misturamos as duas coisas para fazer um jogo só. Como desenvolvemos a idéia juntos, decidimos que iríamos mestrar juntos também.

Fizemos pesados interrogatórios com os jogadores durante o processo de criação das personagens, eles saíram atordoados mas pelo menos todos conheciam as suas personagens de trás para frente (objetivos de vida, história pessoal, história das armas, história de suas famílias, etc).

A história é até bem simples, o sucesso dela dependeu muito de como o mestre a conduzia e como ele conseguia manipular as emoções dos jogadores. Éramos dois mestres para três jogadores, que tinham como personagens um halfling ladrão, um anão guerreiro e um humano necromante. Personagens muito distantes dos heróis típicos. Na verdade, a grande dúvida das personagens era que caminho seguiriam. O caminho do bem ou o do mal.

Eles caminham em direção a uma pequena vila medieval típica. No caminho, notam um pequeno acampamento perto da estrada. Percebem que existem muitas crianças nesse acampamento, e pelas roupas a impressão que se têm é de que eles são de uma região muito distante, pois os trajes são bem diferentes de qualquer um que tenham visto.

Se o grupo tentar falar com as crianças ele conseguirá pouca informação por enquanto.

Chegando à vila, eles são recebidos normalmente. O que eles farão na vila não interessa muito, o mestre pode criar uma pequena missão ou algo assim só para fazer com que as personagens fiquem por ali por um tempo. Mas de uma maneira ou de outra eles aos poucos descobrirão que as crianças chegaram ali na região recentemente e isto está gerando um desconforto muito grande na população local.

Começam a surgir rumores sobre propósitos malignos das crianças ali, de que elas são criaturas mágicas ou coisas do tipo. Caso o grupo investigue, o máximo que eles descobrirão por enquanto é que realmente existe algo estranho com as crianças, e existe mesmo magia nelas.

Com o tempo essa tendência da população estar contra o acampamento das crianças piora, com mais rumores negativos mais fatos comprovados que não ajudam, como roubos efetuados pelas crianças e coisas do tipo.

Até que isso acaba se tornando um ódio contra o acampamento. Um dia esse ódio explode. As personagens do grupo acordam um dia e vêem a população em revolta, marchando em direção ao acampamento e portando armas como pedaços de pau e instrumentos de trabalho agrícolas.

Quando a população chega ao acampamento ocorre um massacre. O grupo vê que o acampamento é formado exclusivamente por crianças, que são dizimadas pelo povo da vila. Diversas delas são feita prisioneiras, mas acabam sendo assassinadas na vila de qualquer forma.

Por mais que o grupo tente evitar esse massacre, eles conseguirão muito pouco. Eles conseguirão salvar apenas algumas poucas crianças.

Passa-se um tempo, os ânimos acalmam e aos poucos o povo da vila começa a tomar consciência do que eles fizeram. E se envergonham de si mesmo. Se a coisa acontecer da mesma maneira que no meu jogo, o grupo pensou que o povo local estava sob a influência de algum feitiço que controlava as pessoas e as tornavam violentas. Mas nesta hora eles percebem que na verdade tudo isso ocorreu por um único motivo: o preconceito da população local contra pessoas de fora. Eles poderiam ter acolhido as crianças em sua cidade, mas as rejeitaram. As crianças realmente roubavam coisas da vila, mas era uma simples questão de sobrevivência. Roubavam para comer, para poderem continuar vivendo.

Isso gera uma imensa indignação nas personagens do grupo. Se havia alguma dúvida sobre qual caminho seguir, agora ela se foi. Todos eles escolhem o caminho do bem, escolhem se tornarem heróis. A cena que eu tive no jogo na qual um anão guerreiro, um halfling ladrão e um humano necromante entram na igreja da vila carregando corpos de crianças mutiladas em seus braços e fazem um tremendo discurso dando uma lição de moral em toda a população (inclusive o padre que nada fez para evitar isso) foi realmente ótima, parabéns aos jogadores.

Eles saem da vila com as poucas crianças sobreviventes e a partir daí a grande missão do grupo é descobrir mais sobre as crianças. Diversos outros acontecimentos podem surgir nesta busca por informações, isso fica por conta de cada mestre e não influencia muito nesta história.

Depois de um longo tempo, o grupo consegue acesso a um portal que leva o grupo e as crianças sobreviventes de volta ao mundo de onde elas vieram. Acabam chegando a uma cidade. Nesta cidade as três primeiras pessoas que eles encontram são crianças (na verdade, as três únicas crianças da cidade). Uma delas é cega, outra é muda e a terceira não apresenta nenhuma deficiência.

As crianças sobreviventes reconhecem estas três outras crianças e correm para abraçá-las. Todas choram, alguns adultos chegam nesta hora. Provavelmente o grupo irá conversar com esse pessoal da cidade até chegarem à pergunta que revelará a história. Quando alguém perguntar que cidade é aquela, a pessoa irá responder: Hamelin. E a história acaba.

Bom, uma das idéias que gerou esse jogo vocês já devem ter deduzido: "O que teria acontecido com as crianças seqüestradas pelo flautista de Hamelin?". Para quem não lembra do conto dos Irmãos Grimm, um resumo: a cidade de Hamelin contrata um flautista para livrar o local de uma praga de ratos. O flautista consegue fazer com que os ratos sigam sua música e os leva a um rio onde os ratos morrem. Mas depois a população de Hamelin se recusa a pagar o flautista por seus serviços e daí o flautista usa novamente sua música, desta vez para levar as crianças da cidade embora. Apenas uma criança escapa. Outras duas retornam, sendo uma cega e outra muda, crianças que não teriam como contar direito o que aconteceu com as outras.

A outra idéia é o massacre gerado pelo preconceito que nós vimos no filme Rainha Margot. Para quem não lembra, o filme é baseado em um livro do Alexandre Dumas e mostra o massacre de protestantes na noite de São Bartolomeu com a conivência do rei da França, Carlos IX. Este massacre ocorre como resultado do casamento de Marguerite de Valois (católica, irmã de Carlos IX) com Henri de Navarre (protestante).

Posted by itiro at junho 5, 2003 06:12 PM

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